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Eu, que nunca tive a vida mansa, canto na ânsia de amansar a vida...

25/07/2011

Poema Inacabado

Sobrariam-lhe atributos
A não ser pelas pernas finas e tortas
Se não fosse a arrogância frouxa
E as negativas veementes às oportunidades da vida
Sobrariam-lhe predicados
Se sujeitos não lhe houvessem roubado os sorrisos
Se as verborragias casuais não lhe tivessem borrado o batom
Se as orações subordinadas não lhe petrificassem a fé
Talvez até haveria um encanto
Se seus espasmos loucos não ocupassem a calçada
Se a garrafa de cana não lhe oferecesse razão
Se as vitrines não fossem o melhor local para expor seu sofrimento
Quem sabe seria belo
Se palavras soltas dessem espaço à rima
Se cada verso fosse o reverso da rotina
Revezando a saudade com a solidão
Sobrariam-lhe sorrisos
Se brotassem do telhado os frutos das lágrimas chovidas
E se um arado estelar fizesse deles flores coloridas
A enfeitar o jardim baldio duma alegria suburbana
Faltariam-lhe calendários
Para marcar os dias perdidos aos pares
Pra descontar sem pressa as horas ganhas pelos bares
Para riscar do ano datas previamente felizes

No final sobram-lhe defeitos
Pois o destino delineou seus rumos
E deu-lhe charme para acertar os prumos
De construir-se sutilmente na ausência do perfeito
De exibir como prêmio mais de mil defeitos
Para orgulhar-se das tatuagens surgidas de cicatrizes

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